Karate Não é sobre ser ‘tradicional’, é sobre ser bom de luta

A maioria das pessoas inicia a prática do Karate na infância ou na adolescência, fases da vida que se caracterizam pela fragilidade psicológica e vulnerabilidade dos indivíduos, especialmente diante de pessoas com más intenções. Em geral, quando se busca o Karate, o praticante tem como objetivo principal desenvolver sua capacidade de defesa pessoal, além de obter benefícios como melhor concentração, aprimoramento das funções vitais por meio da atividade física e até mesmo melhorar a interação social. Inicialmente, tudo tende a correr bem. Para aqueles que não possuem conhecimentos prévios sobre defesa pessoal, o exercício de Kihon é de grande importância, pois, em um curto período, já possibilita a prática da defesa pessoal, embora de forma precária (pois “algo” é melhor que “nada”).

Nos dojos que preservam uma forte ligação com questões tradicionais e linhagens de mestres, é comum que, em um curto espaço de tempo, os estudantes sejam apresentados a uma das ideias mais prejudiciais ao Karate: a noção de pertencer a um grupo seleto em função da linhagem histórica de mestres do passado. Para uma criança ou jovem, essa ideia é especialmente atraente, pois todos desejam se sentir parte de um grupo distinto, vinculado a figuras importantes, cujos nomes estão registrados na história. Esta abordagem pode ser vista como uma forma de “fidelizar” os estudantes, tentando evitar sua evasão ou a filiação a outras escolas de Karate.

No entanto, essa prática, a longo prazo, é prejudicial a todos os envolvidos, independentemente da etapa da vida em que se encontram. O verdadeiro objetivo do Karate é ser um instrumento a serviço da justiça, permitindo que o indivíduo defenda, acima de tudo, sua integridade física. Focar em aspectos “tradicionais” que beiram o misticismo não é relevante dentro do contexto de um dojo. Somos brasileiros e nossa cultura é muito distinta da cultura japonesa. Além disso, o dojo de Karate é o local para aprender Karate, não para absorver cultura e tradições japonesas. Tais aspectos podem ser explorados em centros culturais ou por meio de intercâmbios culturais.

Quanto mais um indivíduo se entrega à ideia de pertencer a um grupo seleto vinculado historicamente a grandes mestres de Karate, mais prejudicial se torna para seu desenvolvimento como Karateca. O estudante perde o foco no aprimoramento técnico e começa a se envolver em questões políticas, entrando no jogo daqueles que buscam lucrar com a venda de “status” dentro da hierarquia de federações de Karate. Com o tempo, o praticante passa a se comportar de maneira descompromissada, sem a devida proficiência técnica, uma vez que perdeu o foco no treinamento. Como resultado, temos “mestres” que, embora façam alarde sobre a cultura japonesa, discutam termos e tradições, são incapazes de realizar um treino de kumite de alto nível focado em defesa pessoal.

É comum vermos praticantes que desfilam com kimonos impecáveis, mas que perderam a noção do tempo desde a última vez que treinaram com intensidade. Isso é profundamente lamentável para o Karate. Essa situação é uma das razões pelas quais o Karate tem perdido espaço no cenário marcial. O Karate precisa retomar sua força, demonstrando que é uma arte marcial de contato e que, quando bem treinado, pode competir com outros estilos de combate, como o Muay Thai. Não devemos ter receio de mostrar que o Karate pode ser “violento”, pois outras artes marciais, como o Kickboxing e o Muay Thai, não hesitam em adotar essa abordagem, e os dojos dessas modalidades estão repletos de praticantes.

Preocupar-se com a construção de um “legado” é em vão se o Karate praticado é ineficiente e o treinamento é fraco. Ninguém se lembrará disso no futuro. Há alguns anos, os Gracie desafiaram as zonas de conforto de muitos lutadores e, por sua competência e eficiência, continuarão sendo lembrados por um bom tempo. No final das contas, o que cada mestre de arte marcial deve buscar é a eficiência de sua prática.

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