O Karateca que Não Luta é Lutador de Brinquedo

Atualmente, o significado de ser um faixa preta é um tema amplamente discutido e, muitas vezes, alvo de controvérsias dentro do universo das artes marciais. No Karatê, em particular, observa-se que, em algumas escolas, a obtenção da graduação máxima está atrelada ao mero cumprimento de um programa de estudos, sem que haja necessariamente um desenvolvimento significativo de habilidades práticas.

Pessoalmente, acredito que um verdadeiro faixa preta é aquele que demonstra alta proficiência nos três pilares fundamentais do Karatê: Kihon, Kata e Kumite. Dentre esses, o Kumite assume papel central, pois representa a aplicação prática dos conceitos aprendidos no dojô, sendo essencial para a defesa pessoal e a integridade física do praticante.

Reflexões sobre a Formação no Karatê

Em dezembro de 2003, tive a oportunidade de assistir a uma apresentação memorável do Kata Saifa no ginásio do Colégio Pedro II. A execução foi realizada por um faixa preta chamado Kazuru, de quem nunca mais tive notícias. Posteriormente, no dojô, meus colegas e eu comentamos sobre a apresentação com nosso sensei, Geovane. Ele reconheceu a qualidade técnica do kata apresentado, mas fez uma observação que me marcou profundamente: enfatizou que, enquanto karatecas, não deveríamos focar exclusivamente na execução de kata de forma espetacular, pois o verdadeiro objetivo do Karatê é a luta. Segundo ele, muitos karatecas se perdem ao longo do caminho, tornando-se excelentes performadores de kata, mas péssimos lutadores.

Na época, confesso que relutei em acreditar nessa afirmação. Como poderia um karateca ser especialista em kata e simplesmente evitar a luta? Durante anos, considerei essa ideia um mito, até o dia em que constatei por experiência própria que se tratava de uma realidade.

A Busca pelo Treinamento Completo

Após a saída do Sensei Geovane da academia por questões pessoais, novos faixas pretas assumiram o treinamento. Em janeiro de 2007, buscando aprimoramento, mudei de dojô e me matriculei em uma academia com melhor infraestrutura e condições de treino. Foi então que passei a treinar com o Sensei Carlos Alberto, aluno direto do lendário Benedito Nelson Mão de Ferro.

Durante os primeiros meses, percebi que os treinos eram fortemente focados no refinamento técnico e na execução de kihon e kata. Contudo, algo me intrigava: não havia sessões específicas de Kumite. O máximo que praticávamos era Kihon Kumite (Gohon Kumite e Sanbon Kumite), que são fundamentais para iniciantes compreenderem a aplicação das técnicas em combate. No entanto, eu já era 3º Kyu e havia outros karatecas ainda mais graduados, incluindo dois faixas pretas. Para nós, o treinamento limitado ao Kihon Kumite não era suficiente. Onde estavam os treinos de Ju Kumite ou Shiai Kumite? Simplesmente não existiam.

Durante anos de prática nessa academia, nunca presenciei um treino de luta conduzido pelo sensei. As únicas oportunidades de treinar combate surgiam quando o sensei se ausentava e o sempai assumia a instrução. Essa ausência sistemática do Kumite levantou questionamentos em minha mente: por que o sensei evitava esse tipo de treinamento? E por que os alunos aceitavam essa omissão? Seria falta de interesse no desenvolvimento da habilidade de luta ou receio da prática do combate?

O dojô dispunha de todos os equipamentos de proteção necessários para um treinamento seguro, o que tornava o medo uma explicação improvável. Foi então que me recordei das palavras do Sensei Geovane e percebi que eu estava matriculado em um dojô onde nunca evoluiria como lutador. Eu poderia, no máximo, tornar-me um “coreógrafo”, com execuções perfeitas de kata, mas sem a capacidade real de aplicar os ensinamentos do Karatê em uma situação de confronto. Como isso não correspondia aos meus objetivos, optei por me desligar da academia, tanto por compromissos profissionais quanto por frustração com a metodologia adotada.

O Karatê Deve Ser Completo

Com o tempo, passei a acompanhar discussões sobre o tema na internet e constatei que essa realidade não era isolada. Muitos dojôs no Brasil negligenciam o treinamento de Kumite, formando karatecas altamente técnicos em kihon e kata, mas incapazes de lutar. Como já havia me alertado o Sensei Geovane, existem inúmeros faixas pretas que dominam os aspectos teóricos do Karatê – incluindo sua história e linhagem de mestres –, mas que falham no principal objetivo da arte marcial: desenvolver-se como lutadores proficientes, capazes de proteger sua própria integridade física.

O Karatê se sustenta sobre três pilares: Kihon, Kata e Kumite. Um praticante que negligencia qualquer um desses elementos está, na verdade, comprometendo seu próprio desenvolvimento. Não existe Karatê sem Kumite, assim como não existe Karatê sem Kata. Contudo, é no Kumite que todo o conhecimento adquirido deve ser aplicado. Afinal, o propósito máximo do Karatê é a luta – e sem ela, a arte perde sua essência.

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