Karate não tem dono — e nunca teve

O Karate é, essencialmente, o resultado de um sincretismo marcial e cultural desenvolvido ao longo de séculos entre o povo de Okinawa e praticantes de Kung Fu oriundos da província de Fujian, na China. Naquela época, o que hoje chamamos de Karate era conhecido como “Tode” — literalmente, “Mão Chinesa”.

Foi só em 25 de outubro de 1936 que o sistema recebeu oficialmente o nome “Karate”, num elegante (e oportuno) ato de apropriação cultural promovido pelo Japão. Rebatizaram o sistema com selo nacional, prontos para exportar a novidade ao mundo como produto genuinamente japonês.

Diante desses fatos — que qualquer um pode confirmar com uma busca rápida na internet — ainda aparece gente com a cara de pau de dizer que o Karate “tem dono”? Sério? Dono de quê, exatamente?

Porque para ser dono de algo, é preciso ter propriedade intelectual sobre aquilo. É necessário ter autoridade legítima para dizer o que é certo e errado com base em como a coisa foi de fato concebida. Mais ainda: esse suposto “proprietário do Karate” teria direito até de cobrar royalties de todas as academias do mundo que usam esse nome. Convenhamos… vamos ser razoáveis.

Ao longo desse processo de sincretismo, houve de tudo: adaptações, reinvenções, trocas culturais. O Karate que conhecemos hoje não é um monólito ancestral sagrado — é um organismo vivo, mutável, moldado por diferentes contextos históricos e sociais.

Mas é aí que entram os “tradicionalistas”, com sua fé cega no “dojo sagrado”, acreditando que treinam sob a bênção direta de uma linhagem mística, conectada à tal “fonte original do Karate”. Aham… senta lá, samurai.

Essa obsessão com o “Karate original” nada mais é do que o grito de desespero de quem tenta desesperadamente ser reconhecido como autoridade. Gente que ainda não entendeu a diferença entre ser dono de uma escola de Karate e ser dono do Karate em si. Essa distinção, aliás, deveria ser óbvia — mas aparentemente não é.

E também não adianta se agarrar ao conceito de “tradição” como se fosse sinônimo de verdade imutável. Quando se fala de uma arte nascida do sincretismo, tentar replicar uma “tradição pura” que nunca existiu é um exercício de auto engano. Os aspectos místicos e “tradicionais” dizem muito mais sobre a cultura de origem do que sobre o desenvolvimento técnico da arte em si.

O objetivo do Karate é simples: lutar. Aprender a se defender. Ponto. Não é buscar iluminação espiritual, nem alcançar o nirvana de dogi branco. Se esse é o seu objetivo, talvez seja melhor trocar a academia por um templo budista — com bons tapetes e chá de ervas, de preferência.

E essa busca pelo arquétipo do “homem oriental ancestral”? A cultura ocidental moderna é completamente diferente. Replicar fielmente o modo de vida de um japonês do século XIX, aqui e agora, no Brasil, é uma fantasia antropológica. Se esse é mesmo seu sonho, sugiro: mude-se para o Japão, more num vilarejo, conviva com idosos locais — e só então talvez comece a entender como eles pensam e vivem.

Enquanto isso, fica o lembrete: uma coisa é o modo de vida do homem oriental. Outra, completamente diferente, é o ensino da arte marcial. Misturar os dois sem critério é o caminho mais curto para virar personagem de anime da vida real — só que sem dublagem.

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