
O Retrato da Maioria dos Karatecas dos Dias Atuais
O arquétipo do karateca contemporâneo está longe de representar o lutador com bom condicionamento físico, alimentação equilibrada e movimentação combativa característica de quem realmente treina para o combate. Talvez isso tenha existido em um passado distante. Infelizmente, hoje predomina outro perfil: o do indivíduo faixa-preta que não demonstra necessariamente habilidades de luta, mas que se destaca pela retórica, pelo suposto conhecimento histórico da cultura japonesa e asiática, pela expertise em etiqueta de dojo e por um ar de pureza, sabedoria e perícia. Além disso, são profundos conhecedores de linhagens e escolas, a ponto de a primeira pergunta ao encontrar outro praticante ser invariavelmente: “Qual é a sua linhagem?”
A resposta a essa pergunta inicial é decisiva, pois determinará o nível de respeito e atenção dedicado ao outro indivíduo — se é que será dedicado algum. As respostas costumam seguir um padrão: “Treinei com José Silva na academia Tal, que foi aluno de Alberto Silva, que por sua vez foi aluno de um brasileiro que aprendeu com um japonês, que treinou com outro japonês vindo do Japão, discípulo direto de um grande mestre japonês, um dos baluartes do Karate.”
Em outras palavras, o interesse em uma “genealogia” supera o interesse por resultados concretos. Isso revela que o karateca moderno, a priori, não está verdadeiramente preocupado com técnica, combate, efetividade ou desenvolvimento marcial. O interesse é político, com o objetivo disfarçado de conquistar alguma notoriedade pessoal. Em um ambiente fragmentado por inúmeras federações e subentidades, a disputa por destaque é feroz. Quando indivíduos de linhagens diferentes competem pela mesma atenção, o conflito costuma ser intenso — ainda que restrito ao ambiente virtual.
Há muito tempo não se resolve diferenças cara a cara. No máximo, surgem comentários velados entre colegas: “Fulano é um grande zé mané” ou “Fulano não entende nada”. E, mesmo assim, mantém-se uma cordialidade superficial, afinal ninguém tem real intenção de lutar. Lutar pra quê? Em um ambiente dominado por disputas políticas, o combate real é visto quase como perda de tempo. O fato é que muitos karatecas atuais evitam qualquer cenário de luta com contato pleno — especialmente os chamados “tradicionalistas”, praticantes do autodenominado “karate-dô tradicional”.
Esses praticantes costumam ser exímios socadores de vento, performers de kata e detentores de um vasto repertório de bunkai cuja efetividade jamais foi testada em combate real. O karateca contemporâneo transpira praticando kihon (socos no ar), executando kata com intensidade e fazendo kumite combinado, no qual ambos já sabem previamente qual será o ataque (como no gohon kumite e no sanbon kumite).
O karateca moderno precisa despertar para a realidade. Se seu interesse não é genuinamente evoluir como lutador, talvez seja hora de sair de cena, pois o objetivo supremo do Karate sempre foi — e continua sendo — formar lutadores. O Karate é um caminho para a defesa pessoal, e não se pode desenvolver defesa pessoal eficaz socando vento ou simulando combate. Assim como alguém aprende a nadar nadando, a tocar um instrumento tocando ou a cantar cantando, aprende-se a lutar… lutando. Não há caminho alternativo.
Infelizmente, esse despertar pode vir em doses amargas: um grande prejuízo em uma situação real de rua ou até mesmo dentro do próprio dojo, ao treinar com colegas que praticam luta regularmente. Para se desenvolver, o karateca precisa buscar contato, interação com outros lutadores e situações que o tirem da zona de conforto — pois é exatamente nesse desconforto que ocorre a evolução.
Para concluir: o karateca precisa ser menos filósofo e historiador, e voltar a ser lutador. Quem vive apenas de contar histórias, participar de cerimônias e estudar idiomas e tradições precisa se reencontrar. O dojo não existe para isso. É importante não confundir uma parte da história da arte com o verdadeiro propósito do Karate.

